Zé Gotinha e a estratégia bem-sucedida do Brasil
Postado em: 17 de Outubro de 2020 por Rotary Club de Ribeirão Preto-Oeste
O Brasil recebeu o certificado de país livre do vírus selvagens da poliomielite em 1994, quase 90 anos depois dos primeiros casos relatados em território nacional. Ao longo desse período, houve surtos inicialmente em grandes cidades e depois em localidades do interior, movimento em geral associado à urbanização.
A primeira vacina contra a poliomielite chegou ao país em 1955. Era a vacina injetável desenvolvida pelo médico americano Jonas Salk a partir do vírus inativado. Após três doses, 99% das pessoas desenvolviam imunidade. Na década seguinte chegaria a versão em gotinhas, desenvolvida por Albert Sabin com um vírus atenuado. Com ela, 95% das pessoas que receberam três doses ficavam imunes.
O primeiro plano do país de controle a doença surgiu no início dos anos 1970. Um artigo de três pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) sobre a erradicação da doença no país cita dados levantados em meados daquela década.
Foram identificados 1.643 casos em 18 Estados. "As principais características da doença no país, naquele momento, eram sua distribuição predominantemente urbana (74%), a concentração em menores de cinco anos, uma elevada proporção de casos em crianças não vacinadas (76%), a predominância do poliovírus do sorotipo 1 (87%) e uma elevada letalidade."
A primeira campanha nacional de vacinação contra a poliomielite ocorreria em junho de 1980. Até então, a imunização nos Estados só atingia metade das crianças, em média. O plano então seria vacinar todas as crianças do país de zero a cinco anos em 14 de junho e 16 de agosto, independentemente de já ter tomado a vacina ou não. E assim elevar para 80% a cobertura vacinal.
Defendida por Albert Sabin, a estratégia de campanhas de vacinação em massa deu certo, e o número de casos caiu de 1.290 em 1980 para 122 no ano seguinte. Naquela década, a vacina em gotas ficou tão associada ao combate à poliomielite que deu origem ao personagem Zé Gotinha, criado em 1986 pelo artista plástico Darlan Rosa. O mascote se tornaria o principal rosto das campanhas de vacinação.
O país ainda enfrentaria surtos isolados de pólio até registrar seu último caso, em março de 1989. A estratégia bem-sucedida contra pólio seria exportada para outros países e teria outras consequências positivas, como o fortalecimento do programa nacional de imunização.
Desde 2011, entretanto, a vacinação contra a poliomielite não é só oral. Agora, a criação de Sabin é apenas o reforço da versão injetável, considerada por alguns especialistas como mais segura e com menos efeitos colaterais.
Segundo o bioquímico Ricardo Gazzinelli, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Vacinas, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), essa mudança na vacina só foi possível porque a doença está erradicada no Brasil.
"A vacina por via oral usa vírus vivo; a injetada contém o vírus 'morto'. Ainda que as vacinas vivas induzam imunidade mais duradoura, quando você chega numa fase de erradicar uma doença, a viva é indesejada, pois a atenuação do vírus pode reverter, tornando-se patogênico de novo. E se espalhar na natureza novamente", explicou em entrevista à BBC News Brasil em julho. "Neste caso, se opta por vacinas 'mortas'."
Por outro lado, as gotinhas têm um efeito da chamada "proteção de rebanho" — a criança que a ingere, acaba contribuindo para que o vírus não se espalhe. Isto porque na versão injetável, com o vírus inativado direto na corrente sanguínea, não ocorre uma colonização da mucosa intestinal.
A gotinha, por sua vez, faz isso com o vírus atenuado — que, eliminado pelas fezes espalha-se no ambiente, imunizando terceiros que tenham contato com ele. De quebra, esse vírus atenuado compete com o selvagem na natureza.
Para além da vacina utilizada, a queda na cobertura vacinal como um todo preocupa autoridades e especialistas quanto a um possível retorno da doença.
(BBC News)






